Às 13h de uma tarde de quarta-feira, espremidos em um transporte alternativo rumo a Campina Grande, uma anciã, magrinha e de voz frágil reclama da sorte: “Esse hospital de Serra Branca já era! Acabou-se! Vou prô João XXIII ver se escapo”.
O motorista completa: “O Hospital de Serra Branca está sujo e mal cuidado. Não tem médico nem medicamentos”
Uma mulher gordinha, imprensada no meio do banco de trás continua a conversa: “É verdade! Saí de São José dos Cordeiros para ver um problema de saúde no Hospital de Serra Branca, mas parece que o médico ainda é um estudante. Também vou prá Campina Grande sofrer por lá...”
No banco da frente uma mulher grávida se vira prá entrar na conversa, falando em voz alta: “O PSF de Serra Branca também tá uma droga! A médica lá do posto foi embora. Médica boa! Dizem que não agüentou a bagunça...”
A anciã retomou a palavra: “Os médicos foram tudo embora, só ficou Dr. Marcelo. Dizem que é um bom pediatra”
Entrei na conversa: “Dr. Marcelo não é pediatra!”
“Dr. Marcelo não é pediatra?” – pergunta a passageira no banco da frente.
Confirmei: “Não é nem nunca foi. Nunca fez residência nessa área”
“E o que é isso?” – indagou o motorista curioso.
Respondi: “Fazer residência médica é quando o médico se forma e vai passar um tempo estudando mais ainda dentro de um hospital para aprender uma especialização, de pediatra, por exemplo”.
A gordinha fala espantada: “E Dr. Marcelo não fez isso para ser pediatra? Então ele tá enganando a gente”.
“Mas ele é tão educado!” – exclama a senhora do alto de sua idade.
“Também! Ganhando 17 mil reais! Tem que ser muito educado mesmo” – falou o motorista.
Voltei à conversa: “Médica pediatra era Dra. Lúcia Pedrosa e pediatra das boas”.
“Também na cidade de Serra Branca não falta acontecer mais nada: O Hospital acabou-se! O PSF tá do jeito que tá, com os médicos correndo prá lá e prá cá para atender no hospital também e não atendem que preste nem lá e nem cá... O pediatra não é pediatra...” – resmungou a passageira grávida balançando a cabeça em movimentos de reprovação.
O motorista voltou à conversa já meio bravo: “Tem fila para marcar exame que as pessoas chegam às duas horas da madrugada e não conseguem nada. Tudo no mundo é preciso correr prá Campina Grande porque no hospital de Serra Branca não se resolve um parto”.
“Tá ruim! – falou a mulher grávida indignada – Nem hospital, nem PSF, nem exame, nem medicamento e nem pediatra”
O motorista então aclamou: “E o prefeito pensa que tá fazendo uma grande coisa enchendo os carros de gente e mandado o povo se humilhar em Campina Grande!”
A mulher gordinha, corada e esbaforida de calor, arremata: “A humilhação já começa na hora de pedir o carro, seja na porta do hospital, seja esperando o prefeito acordar ou então indo esperar um tal de Souzinha para liberar pelo menos uma passagem num transporte alternativo”.
Voltei ao assunto: “E tudo isso fica muito mais barato para a prefeitura. Gasta muito menos encher os carros de gente e mandar para Campina Grande do que manter bons médicos trabalhando direito no hospital e nos postos do PSF.”
O motorista conclui rápido: “E eles ainda querem os votos dos doentes e do motoristas dos carros alternativos”.
A senhora anciã entorna a voz e foi contando nos dedos: “Sabidos esses gaudêncios na política. Gastam menos com a saúde do povo do que o povo merece. Economizam no hospital e nos postos do PSF. Economizam nos exames e nos remédios. Economizam na feira do hospital. E ainda querem os votos da gente e dos motoristas que nos carregam prá Campina Grande? Eita meu Deus, será que todo mundo é besta?”
E o motorista saiu deixando suas passageiras. Uma para ficar com um irmão noHospital de Trauma. Uma na Maternidade Elpídio de Almeida. A terceira no Hospital João XXIII.
Eu fui prá rodoviária e segui meu caminho pensando: “Será que todo mundo é besta?”
O motorista completa: “O Hospital de Serra Branca está sujo e mal cuidado. Não tem médico nem medicamentos”
Uma mulher gordinha, imprensada no meio do banco de trás continua a conversa: “É verdade! Saí de São José dos Cordeiros para ver um problema de saúde no Hospital de Serra Branca, mas parece que o médico ainda é um estudante. Também vou prá Campina Grande sofrer por lá...”
No banco da frente uma mulher grávida se vira prá entrar na conversa, falando em voz alta: “O PSF de Serra Branca também tá uma droga! A médica lá do posto foi embora. Médica boa! Dizem que não agüentou a bagunça...”
A anciã retomou a palavra: “Os médicos foram tudo embora, só ficou Dr. Marcelo. Dizem que é um bom pediatra”
Entrei na conversa: “Dr. Marcelo não é pediatra!”
“Dr. Marcelo não é pediatra?” – pergunta a passageira no banco da frente.
Confirmei: “Não é nem nunca foi. Nunca fez residência nessa área”
“E o que é isso?” – indagou o motorista curioso.
Respondi: “Fazer residência médica é quando o médico se forma e vai passar um tempo estudando mais ainda dentro de um hospital para aprender uma especialização, de pediatra, por exemplo”.
A gordinha fala espantada: “E Dr. Marcelo não fez isso para ser pediatra? Então ele tá enganando a gente”.
“Mas ele é tão educado!” – exclama a senhora do alto de sua idade.
“Também! Ganhando 17 mil reais! Tem que ser muito educado mesmo” – falou o motorista.
Voltei à conversa: “Médica pediatra era Dra. Lúcia Pedrosa e pediatra das boas”.
“Também na cidade de Serra Branca não falta acontecer mais nada: O Hospital acabou-se! O PSF tá do jeito que tá, com os médicos correndo prá lá e prá cá para atender no hospital também e não atendem que preste nem lá e nem cá... O pediatra não é pediatra...” – resmungou a passageira grávida balançando a cabeça em movimentos de reprovação.
O motorista voltou à conversa já meio bravo: “Tem fila para marcar exame que as pessoas chegam às duas horas da madrugada e não conseguem nada. Tudo no mundo é preciso correr prá Campina Grande porque no hospital de Serra Branca não se resolve um parto”.
“Tá ruim! – falou a mulher grávida indignada – Nem hospital, nem PSF, nem exame, nem medicamento e nem pediatra”
O motorista então aclamou: “E o prefeito pensa que tá fazendo uma grande coisa enchendo os carros de gente e mandado o povo se humilhar em Campina Grande!”
A mulher gordinha, corada e esbaforida de calor, arremata: “A humilhação já começa na hora de pedir o carro, seja na porta do hospital, seja esperando o prefeito acordar ou então indo esperar um tal de Souzinha para liberar pelo menos uma passagem num transporte alternativo”.
Voltei ao assunto: “E tudo isso fica muito mais barato para a prefeitura. Gasta muito menos encher os carros de gente e mandar para Campina Grande do que manter bons médicos trabalhando direito no hospital e nos postos do PSF.”
O motorista conclui rápido: “E eles ainda querem os votos dos doentes e do motoristas dos carros alternativos”.
A senhora anciã entorna a voz e foi contando nos dedos: “Sabidos esses gaudêncios na política. Gastam menos com a saúde do povo do que o povo merece. Economizam no hospital e nos postos do PSF. Economizam nos exames e nos remédios. Economizam na feira do hospital. E ainda querem os votos da gente e dos motoristas que nos carregam prá Campina Grande? Eita meu Deus, será que todo mundo é besta?”
E o motorista saiu deixando suas passageiras. Uma para ficar com um irmão noHospital de Trauma. Uma na Maternidade Elpídio de Almeida. A terceira no Hospital João XXIII.
Eu fui prá rodoviária e segui meu caminho pensando: “Será que todo mundo é besta?”
Por Zizo Mamede
